30 outubro, 2008

A cidade que tinha medo de chuva

Para ler ouvindo: Oh chuva - Fala mansa


A cidade que tinha medo de chuva.


Orgulhosa do jeito que era São Paulo tinha vergonha de admitir um dos seus maiores medos. Nem adianta pergunta pra ela qual é, que com toda certeza e voz de deboche ela vai te afirmar que não tem medo de nada.

Ou quase nada!

Mas basta as nuvens pretas cobrirem os céu, o vento forte agitar a copa das árvores, o clarão branco do raio abrir passagem para o poderoso do trovão e a primeira gota d’água tocar o solo, para suas pernas tremerem e a vontade de correr para o quarto da mãe em busca de abrigo tomar conta do seu corpo todinho.

Ah, São Paulo, qual o problema em admitir seu medo?
Você não é a única que tem medo de chuva!

Mas não, é claro. Ela nunca admitiria que tem medo, ainda mais para seus irmãos ou quem quisesse saber.

Sim afirmava o Acre:
- São Paulo tem medo da chuva.

Era possível ver a cara de irritação da Sampa toda vez que aquela voz-zinha estridente e aguda cantarolava a frase:
- São Paulo tem medo de chuva,
- São Paulo tem medo de chuva.
- São Paulo tem medo de chuva.

Mas irritada ficava mesmo quando via o corro engrossar.
Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá todos adoravam caçoar de São Paulo.

No fundo, no fundo ela sabia que tinha medo, mas justo ela que andava com o peito estufado e orgulhava-se dos generosos adjetivos que sempre recebia:
- Sou a locomotiva desse país!
- A terceira maior cidade do mundo!
- A metrópole que não dorme!

Ela não, São Paulo nunca admitira seus medos, ainda mais esse que para ela parecia bem bobo. Deixa, deixa dava os ombros para os irmãos maldosos, todos me querem, recebo um montão de gente que não que não quer ficar com vocês, eles vem até mim e me pedem acolhida, vê se isso acontece com vocês. Nem ligo! E outra como posso ter medo de chuva se sou a terra da garoa. Garoa é uma chuva fraca, ta. Eu adoro chuva!

O Rio, Minas, Paraná, Rio Grande formavam a turma do deixa disso, preferiam não zuar os medos da irmãzinha. Tinha ainda aqueles que oram zuavam, oras não deixavam os outros zuar. Coisas de irmão, ainda mais numa família tão numerosa.

A grande verdade é que São Paulo tinha medo sim, mas isso era decorrência de alguns constantes traumas. Qual outra cidade enfrentava 4 estações em único dia. Só em São Paulo. Coitadinha

Sem falar nas avassaladoras enchentes que vinham avassaladoras e seus rastros de destruição. Tristezinha, São Paulo via sofás e mais sofás empilhados de um canto a outro na rua, isso sem falar nos eletrodomésticos, colchãos, móveis, roupas sujas.

Quando a primeira gota se espatifava contra o asfalto ela sentia calafrios ao imaginar os quilométricos congestionamentos. Era um mar de carros com luzes vermelhas e brancas todos enfileirados que não paravam de reclamar ao som dos pára-brisas.

- Shi! São Paulo, lá vem chuva!
E ela pensava o grande Gaia o que eu fiz pra merecer tudo isso!

Scrabum!

E o medo lhe fazia correr arrepios pelas pernas, o sorriso sem graça ia tomando conta do rosto, as mãos frias, o olhar longe no céu, o suor teimando em descer pela testa, os joelhos tremendo uns contra os outros.

Scrabum!

E pulava a pobrezinha para o lado e agarrava quem estivesse por perto!

- São Paulo tem medo de chuva
- São Paulo tem medo de chuva!
- Tenho não!
- São Paulo tem medo de chuva!
- Num tenho!

Scrabum!

- Aaaaaaaaaah!
- São Paulo tem medo de chuva!
- Ta bom!
- São Paulo tem medo de chuva!
- Tá, eu tenho, eu tenho.
- Hã!?
- Não tenho, eu disse eu não tenho!

É São Paulo, você pode não admitir, espalhar por ai que és bela, és forte, impávida, colosso que nós aqui vamos continuar fingindo que acreditamos que você não tem medo da chuva.